“Tezuka-san, meu irmão temporão”

mauricio_tezuka

Acredito que a maioria dos interessados em animes e mangás conheçam Tezuka, bem como a maioria das crianças brasileiras conhecem a Turma da Mônica de Mauricio de Souza.  Acredito também, que os interessados acabam sabendo em algum momento da relação de amizade entre Tezuka e Mauricio.

Bom, o que estou colocando aqui não é nenhuma novidade, mas acho legal, pois é uma parte da história que muitos desconhecem.

Quando Tezuka faleceu em 1989 (eu tinha 3 anos), Mauricio colocou essa imagem em todos os gibis da turma. Acredito que muita gente nem tenha entendido, mas certamente ficaram impressionadas ao ver a turma consolando personagens desconhecidos.

Essa foi a maneira que mauricio encontrou para homenagear seu grande amigo Tezuka. Alem dessa singela homenagem, Maurício escreveu um artigo sobre a amizade deles, artigo esse que entitulou esse post.

Segue o artigo.

“Tezuka-san, meu irmão temporão”

por Mauricio de Sousa

Tezuka Osamu, o mestre dos quadrinhos e dos desenhos animados japoneses, não está entre nós desde 1989. Mas nos seus últimos anos de vida surgiu entre nós uma amizade, uma camaradagem que poucas vezes tive com outra pessoa.

Para quem não sabe, Tezuka é o criador de personagens conhecidos mundialmente como: Astro Boy, A Princesa e o Cavaleiro, Kimba (O Leão Branco)…

Nosso primeiro encontro foi em Tóquio, durante viagem que me foi oferecida pela Fundação Japão para estudo da realidade das crianças japonesas: seus hábitos, desejos, como são tratadas e o que se faz para elas no País. Não podia, portanto, faltar um contato com o ídolo das crianças e de mais três gerações de japoneses: o mestre (sensei) Osamu Tezuka.

E ele foi me receber no aeroporto. Alice, minha mulher, me acompanhava. Já era noite, tínhamos quase 30 horas de vôo, mas ele insistiu que devíamos acompanhá-lo para um jantar especial no luxuoso restaurante do Hotel New-Otani. Fomos. E nos esperava, realmente, uma surpresa: uma enorme caravela, de mais de metro, sobre a mesa, com todos os tipos de “sashimi” possíveis e imagináveis. Para os que desconhecem, “sashimi” é peixe cru. Que eu não suporto. Mas o banquete era em minha homenagem, “sashimi” é um prato finíssimo, Tezuka-San era uma personalidade… como fazer? Comer.

E Tezuka-San explicava a origem e o tipo de cada peixe que me fazia experimentar.

Naquela noite fui dormir honrado e farto de peixe por muito e muito tempo.

Posteriormente, ele me levou às TVs locais para falar do nosso trabalho no Brasil e depois me apresentou a diversos colegas desenhistas.

Foi um bom começo de amizade, prolongada com uma visita que Tezuka-San fez ao Brasil também patrocinada pela Fundação Japão.

O encontro seguinte foi numa nova viagem minha ao Japão. Daí com um planejamento direcionado para uma aproximação maior com Tezuka-San e sua obra. Que terminaria com uma memorável festa onde se comemorariam os seus cinqüenta anos de atividade artística.

A festa foi um luxo só, no finérrimo Hotel Akasaka, de Tóquio. Todos os principais desenhistas do Japão e muitos de outros países estavam lá para cumprimentar o “sensei”. Comidas típicas japonesas à vontade, bebidas de primeira, estátuas lindíssimas de gelo com o formato de seus principais personagens, mocinhas com um elegante uniformezinho de saias curtas percorriam o luxuoso salão, atendendo aos convivas com uma mesma atenção. E no rosto de cada moça uma máscara com as feições caricaturadas do homenageado. Eram dezenas de “tezuquetes” no salão. Amigos antigos, editores agradecidos e autoridades se revezavam nos discursos de saudação. Tudo muito bem planejado, com tempo marcado e tudo. Eu mesmo tive direito a três minutos de oratória. Em japonês!

Consta que li direitinho.

Mas, antes da festa, tivemos uma volta às suas origens: tive a honra de acompanhá-lo numa viagem por todos os pontos que marcaram a vida de Tezuka-San. Desde a distante cidade de Takarazuka, com seu gigantesco teatro à moda do “Radio City” de Nova York, os parques em que ele brincava em criança, a escola, e depois seus estúdios, em Tóquio, seu museu particular, sua família, sua casa…

Era um retorno, uma viagem de nostalgia que ele nunca havia feito na vida, um momento de descanso para um artista que fazia meio século não parava de trabalhar.

Durante esses dias de irmandade, muita conversa rolou. Sobre nossas vidas, sonhos, objetivos alcançados, o preço que se paga para atingir algumas metas… e o futuro: o que fazer para aproveitar o oxigênio que ainda temos no alto da montanha de realizações profissionais?

A continuação desse último tema ficou para minha viagem seguinte ao Japão.

Mas quando comecei a planejar essa nova viagem, senti que havia alguma coisa estranha. Não conseguia falar com Tezuka-San por telefone nem marcar encontro com ele. Suas secretárias, seus diretores davam as mais variadas e polidas desculpas, mas nada de informações concretas.

Quando cheguei a Tóquio para outros contatos comerciais, já havia desistido de me avistar com Tezuka-San. Mas fui surpreendido por um inesperado telefonema de um assistente seu. Tezuka-San poderia se encontrar comigo num salão do Hotel New-Otani naquela tarde durante algum tempo. Estranhei um pouco a forma, mas fiquei supersatisfeito com a possibilidade de rever o amigo. E fui ao seu encontro acompanhado de uma intérprete.

Quando cheguei percebi, instantaneamente, o porquê dos “mistérios”. Tezuka-San já estava muito mal, maltratado por um câncer, abatido, magro. Mas com poucos minutos de conversa, sua aparência que me assustou e entristeceu foi esquecida. Sua lucidez, energia, vontade estavam todas ali, intocadas. E principalmente para me passarem conselhos e orientação. Contou-me de problemas que teve com sua empresa, em certas épocas. E me falou dos cuidados que eu deveria ter no meu estúdio para não repetir seus erros.

Mostrava-se triste com a onda de histórias em quadrinhos e desenhos animados cheios de violência que varriam o mundo a partir do Japão. E sentia-se meio responsável por isso. Afinal, suas produções e estúdios foram verdadeiras escolas para milhares de desenhistas e animadores japoneses.

Fazia questão de falar das suas últimas produções, já mais poéticas e humanistas. Ao contrário das primitivas.

E finalmente insistia que a vida não é só trabalho, como tinha sido com ele desde o início. Sugeria que eu não me escravizasse, como ele, que ficava dias e noites terminando um filme ou um livro sem se lembrar de voltar para casa ou para a família.

Arrependia-se. Mas o tempo já tinha passado. Via em mim uma eventual continuação corrigida das coisas que ele pretendia fazer. Inclusive uma co-produção onde seus personagens se misturariam com a Turma da Mônica. Assim que ele melhorasse um pouco, trataríamos desse projeto.

Falou… falou… até que senti que ele precisava descansar. Seu acompanhante, diretor da Tezuka Productions, conduziu-o de volta para o hospital de onde ele tinha fugido só para nossa conversa.

A tecnologia e a medicina não conseguiram reverter o processo. E por mais que o “Kimba” Tezuka lutasse, a moléstia venceu.

Recebi a notícia logo que cheguei ao Brasil.

E ainda hoje, quando me lembro do meu “irmão” Tezuka-San, sinto duas emoções: uma de tristeza por ele não estar mais aqui (valendo um nó na garganta) e outra de agradecimento pelo privilégio de tê-lo conhecido e de ter recebido dele a energia dos seus conhecimentos e da sua amizade.

Mauricio de Sousa
29/12/1996

Espero que apreciem.

Até mais ^^

By Jennysakura

One Response to ““Tezuka-san, meu irmão temporão””

  1. Shaoran Li

    Muito bom o post. Já tinha lido esse texto, achei muito legal^^

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